Hoje, a castanheira é encontrada do Amapá até a Bolívia e Peru. Mas, segundo o professor, essa distribuição não ocorreria sem a ajuda do homem e da cotia, um roedor de médio porte. Eles são os únicos que conseguem quebrar o ouriço, a casca dura que reveste as sementes e não se abre espontaneamente, retirá-las e espalhá-las, involuntariamente. Como o homem percorre distâncias muito maiores que a cotia, suspeita-se que a larga ocorrência da espécie se deu pelo manejo involuntário de populações indígenas do passado, que já se beneficiavam da castanha. “Provavelmente, a castanheira tinha uma distribuição e adensamento bem menor que a atual e o ser humano favoreceu a sua distribuição e a densidade”, comenta.
Até 2017, junto com
a pós-doutoranda Susan Aragón, da Pós-Graduação em Recursos Naturais da
Amazônia (PGRNA), Scoles irá coordenar um projeto para investigar a relação
pretérita e presente entre a distribuição de castanhais na Amazônia e a
ocupação humana, além de consolidar estudos sobre ecologia e manejo da
castanheira na região do Rio Trombetas, no oeste do Pará. O estudo será
realizado em parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da
Biodiversidade (ICMBio), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e a
ONG Kirwane Desenvolvimento Integral.
A ideia é mapear os
castanhais existentes na Amazônia – que chegam a concentrar de 15 a 20 árvores
por hectare, muito mais do que em florestas comuns, onde se encontra menos de
uma árvore por hectare – e áreas de terra preta – um solo fértil e escuro, que
concentra vestígios cerâmicos de povos pré-históricos e é rico em nutrientes e
matéria orgânica. Depois, cruzar essas informações para analisar se existem
padrões comuns nas regiões onde os adensamentos de castanheira ocorrem. Dessa
forma, seria possível testar a tese de que os castanhais são florestas
antropogênicas, isto é, favorecidas pelo homem, e indicadores de ocupação
humana pretérita.
Outra forma de
comprovar a tese seria através de estudos genéticos: “Se o fator humano é
determinante na distribuição das populações de castanheira, espera-se que haja
menos diferenças genéticas entre as variedades de castanheira de diferentes
partes da Pan-Amazônia (por exemplo, as populações de Bolívia e do Pará, bem
distantes geograficamente). Se [a dispersão de sementes] fosse de forma
natural, requereria muito mais tempo, já que a dispersão de cotia é de
curta distância, e, portanto, haveria maior diferenciação genética entre as
populações localizadas em áreas distantes”, defende o ecólogo. Em 2017, Scoles
irá participar de uma rede de pesquisadores coordenados pela Embrapa para a
realização desses estudos.
Benefício mútuo -
Segundo dados coletados pelo pesquisador no Pará e no Amazonas, os castanhais
mais próximos a comunidades são mais jovens e adensados. Ao contrário do que se
pode acreditar erroneamente, o trabalho dos castanheiros favorece a dispersão e
o crescimento da planta porque durante o processo de coleta, lavagem e
transporte algumas castanhas caem no meio do caminho e germinam. A entrada de
luz pelas clareiras no meio da floresta também estimula o desenvolvimento das
plantas jovens, que precisam de alta luminosidade, ao contrário do que mostrou
o monitoramento em florestas fechadas, onde há alta mortalidade e baixos níveis
de crescimento.
“Não é qualquer
perturbação que vai beneficiar a castanheira. São perturbações de baixa
intensidade e não muita frequência”, esclarece. Nos estudos realizados pelo
ecólogo, verificou-se que o desmatamento afeta negativamente as árvores que
permanecem em pé em áreas de pastagem, por exemplo. Como a espécie é protegida,
ela não pode ser derrubada. Mas isso não garante que ela consiga viver sem o
resto da floresta. “O que fazem os fazendeiros? Eles deixam a castanheira em
pé. Ela fica isolada, não produz e acaba morrendo”, conta Scoles.
Nos municípios
paraenses de Óbidos e Oriximiná, ainda há grandes áreas de castanhais
preservados, e a coleta da castanha é o principal produto florestal não
madeireiro para as comunidades rurais. Scoles conta que os próprios
castanheiros têm um profundo conhecimento da floresta e percebem que os
castanhais mais próximos são também os mais produtivos “É uma relação muito
além da econômica, porque há uma relação simbólica em todas as fases da coleta,
de identificação da pessoa, do castanheiro, com atividade extrativista. É uma
atividade exigente e cansativa. Tem que ter o conhecimento da floresta e da
árvore muito forte e aprimorado”, conclui.
Luena Barros -
Comunicação/Ufopa

0 comentários:
Postar um comentário